Modo Festa – O Outro Lado do Brilho

Em dezembro, jantares, presentes e compras online intensificam o consumo e aumentam o desperdício. É um período em que pequenas escolhas podem influenciar de forma visível o impacto gerado.

Dezembro é sempre um mês cheio. Começa com os primeiros jantares de Natal das empresas, passa pelos convívios de amigo secreto, segue para as consoadas em família, entra pela passagem de ano e, para muitas pessoas, só abranda depois dos Reis. Entre iluminações, mesas compostas e acontecimentos sociais, passamos semanas inteiras em “modo festa”. E, quase sem darmos por isso, também em “modo consumo”.

O problema não é celebrar. O problema é quando celebrar se confunde com acumular.

Ao longo do ano, Portugal desperdiça cerca de 1,9 milhões de toneladas de alimentos — o equivalente a 184 kg por pessoa. Em dezembro, a tendência intensifica-se: compramos mais “para não faltar”, repetimos sobremesas em todas as mesas, multiplicamos entradas e pratos principais, e uma parte significativa da comida acaba por não ser consumida. Em paralelo, o consumo em bens não alimentares dispara, com especial destaque para têxteis, eletrónica, brinquedos e decoração, precisamente as categorias mais presentes nas festividades de fim de ano.

Num mês pensado para aproximar pessoas, afastamo-nos daquilo que deveria importar: a presença, a origem, o valor e a consequência do que entra (e sai) da nossa casa.

Este excesso não se limita ao Natal. Passa pelo outfit “diferente” para a festa da empresa, pelo dress code da passagem de ano, pelos adereços temáticos das festas de escola, pelas luzes e objetos que compramos “só para este ano”.

É aqui que entra a abordagem ultra fast – fast fashion, fast tech, fast décor, fast gifts, fast food. Tudo é pensado para ser barato, chegar rápido e desaparecer depressa.

Plataformas como Shein e Temu tornaram-se a montra perfeita desta lógica. Já não vendem apenas roupa; vendem praticamente tudo o que possa caber numa caixa: vestidos, pijamas de Natal, brinquedos com luzes e sons, gadgets de cozinha, decorações efémeras, acessórios para selfies e vídeos, brindes eletrónicos para trocas de presentes. O catálogo renova-se a um ritmo difícil de imaginar: estima-se que a Shein chegue a colocar até 10 mil novos produtos por dia online, o que é várias vezes mais do que qualquer retalhista tradicional consegue acompanhar.

A mensagem implícita é simples: se é tão barato e há sempre algo novo, não vale a pena pensar muito. Compra-se, usa-se, descarta-se. E repete-se o ciclo.

Este modelo tem três efeitos que raramente entram na conversa quando falamos de “espírito de festas”.

O primeiro é ambiental. Cada pequena encomenda internacional traz consigo uma pegada de carbono associada ao transporte, embalagens, devoluções e, muitas vezes, ao envio rápido por via aérea. Estudos europeus sobre comércio eletrónico mostram que uma entrega ao domicílio pode representar entre 1 e 3 kg de CO₂ equivalente, dependendo da distância e do tipo de serviço; quando multiplicamos este valor por milhões de encomendas de baixo valor, o impacto deixa de ser marginal.

O segundo efeito é material. Grande parte dos artigos vendidos nestas plataformas é feita em fibras sintéticas derivadas de combustíveis fósseis ou em plásticos difíceis de reciclar. Duram pouco, partem com facilidade ou simplesmente deixam de nos interessar quando a próxima tendência aparece no ecrã. O destino provável é o caixote do lixo, contribuindo para um fluxo de resíduos têxteis, eletrónicos e de embalagens que os sistemas municipais têm dificuldade em acompanhar.

O terceiro efeito é social. Relatórios independentes apontam para jornadas de trabalho excessivas, condições de segurança deficientes e falta de transparência nas cadeias de fornecimento associadas a este tipo de produção. O preço final que vemos não reflete, muitas vezes, o custo real para as pessoas que produzem, nem para as comunidades onde esses produtos acabam descartados.

Ao mesmo tempo, as estatísticas europeias sobre desperdício e resíduos mostram que o período de festas é um dos momentos em que mais pressionamos os sistemas ambientais. A União Europeia estima que o volume de resíduos urbanos aumente significativamente nas semanas de Natal e Ano Novo, com uma proporção elevada de embalagens de presentes, sacos, papel de embrulho e restos de comida. No agregado, as celebrações de fim de ano fazem parte de uma “tempestade perfeita”: mais consumo, mais embalagens, mais viagens, mais desperdício.

Mas esta não é uma história sem alternativa. É também, potencialmente, uma oportunidade para recentrar o que as festividades significam para nós.

Quando optamos por comprar em comércio local — numa livraria de bairro, numa loja de brinquedos portuguesa, numa marca de roupa nacional, num produtor de queijos ou vinhos da região — estamos a fazer uma escolha com impacto múltiplo. Reduzimos, em média, a distância que os produtos percorrem até chegar à nossa casa, diminuindo a necessidade de transporte de longa distância e a pegada de carbono associada. Operamos num quadro de normas laborais e ambientais mais exigente e deixamos mais valor na economia real que nos rodeia: salários, impostos, investimento em serviços e projetos locais.

Também na alimentação, pequenas decisões somam-se: planear melhor quantidades, combinar menus com a família para evitar duplicações, guardar espaço para aproveitar sobras em vez de cozinhar tudo de raiz em cada encontro, recorrer a iniciativas de reaproveitamento e doação quando há excedentes. O objetivo não é “tirar a magia” da mesa, mas retirar o desperdício que a acompanha.

Nas empresas, o mesmo raciocínio aplica-se aos cabazes e presentes corporativos. Em vez de brindes descartáveis de plataformas globais, é possível apostar em produtos de produtores portugueses, experiências culturais, apoio a projetos sociais ou créditos de consumo responsável. O gesto é o mesmo — agradecer, reconhecer, celebrar — mas a mensagem que envia, internamente e para o exterior, é radicalmente diferente.

O ponto central não é culpar quem faz uma encomenda online ou compra um vestido para a passagem de ano. O ponto é tomar consciência do sistema em que nos movemos e do papel que temos na sua manutenção ou transformação. As plataformas de ultra fast existem porque respondem a uma procura real: queremos que tudo seja rápido, barato e ilimitado. A questão é se é isso que queremos continuar a estimular, sobretudo numa época do ano em que falamos tanto de cuidado, partilha e futuro.

Talvez a pergunta certa, neste dezembro, não seja “o que ainda falta comprar?”, mas “o que faz sentido manter?”.

Que tradições queremos reforçar?

Que economia queremos alimentar?

Que tipo de presentes, materiais ou imateriais, queremos que fiquem depois do brilho das luzes?

Se cada família, cada empresa e cada pessoa fizer um pequeno desvio em relação à abordagem do ultra fast, o impacto acumulado será maior do que pensamos. Menos encomendas impulsivas, menos comida no lixo, mais apoio a quem produz perto de nós. Mais coerência entre aquilo que dizemos nas redes e aquilo que colocamos no carrinho.

As festas vão continuar a ser um momento alto do ano. A diferença está em decidir se queremos que sejam também um momento alto de desperdício — ou um ponto de viragem para um consumo mais consciente, alinhado com o futuro que dizemos querer construir.


Escrito por Beatriz Santos

*Foto da capa de freestocks no Unsplash

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