Durante décadas, o modelo económico dominante assentou numa lógica linear relativamente simples, extrair recursos, produzir, vender e descartar. Este modelo revelou-se eficaz num contexto em que os recursos eram abundantes, os custos ambientais estavam fora da equação económica e as cadeias de abastecimento funcionavam com relativa previsibilidade. Esse contexto, porém, deixou de existir.
Hoje, as empresas operam num ambiente marcado por volatilidade nos preços das matérias-primas, fragilidade nas cadeias de abastecimento, maior escrutínio por parte de clientes e investidores e um enquadramento regulatório em rápida evolução. A circularidade deixou, por isso, de ser um tema lateral e passou a entrar diretamente na discussão sobre eficiência, risco e competitividade.
A publicação, em março, do novo Plano de Ação para a Economia Circular (PAEC) vem reforçar esta mudança. O documento aponta de forma clara para uma economia menos dependente de recursos, com maior valorização de materiais, produtos mais duráveis e novos modelos de negócio baseados na reutilização e extensão do ciclo de vida. Mais do que orientação política, este enquadramento começa a traduzir-se em condições concretas de mercado e de regulação.
O Problema Estrutural do Modelo Linear
A circularidade continua, muitas vezes, a ser associada à gestão de resíduos ou à reciclagem. No entanto, essa abordagem fica aquém do essencial. O problema não está apenas no fim do ciclo, mas na forma como o sistema é desenhado desde o início.
Modelos lineares implicam uma dependência constante de inputs externos, seja de matérias-primas, de energia ou de componentes, cujo custo e disponibilidade estão cada vez mais sujeitos a volatilidade. Essa dependência traduz-se em risco operacional e financeiro. Quando há ruturas de abastecimento ou aumentos de preço, a empresa tem pouca margem de manobra.
É precisamente neste ponto que a circularidade ganha relevância estratégica, ao reduzir desperdício e ao criar alternativas dentro do sistema produtivo, permite diminuir essa exposição.
Desperdício Como Perda Económica
Um dos bloqueios mais frequentes à adoção de práticas circulares é a perceção de que implicam custos adicionais. No entanto, essa leitura ignora um ponto essencial, o desperdício já existe, simplesmente não está identificado como tal.
Perdas de material, ineficiências de processo ou subutilização de recursos estão muitas vezes diluídas nos custos operacionais e, por isso, não são tratadas como um problema estratégico. Ainda assim, representam valor económico que a empresa não está a capturar.
De acordo com a Ellen MacArthur Foundation, uma parte significativa do valor ao longo das cadeias de produção perde-se precisamente por não se fecharem ciclos de materiais e por não se prolongar a vida útil dos produtos. A circularidade, neste contexto, surge como uma forma de recuperar esse valor e melhorar a eficiência económica.
Resiliência Num Contexto de Incerteza
Nos últimos anos, diferentes crises expuseram a vulnerabilidade de cadeias de abastecimento excessivamente dependentes de geografias ou fornecedores específicos. Esta realidade trouxe a resiliência para o centro da gestão empresarial.
A circularidade contribui para essa resiliência ao reduzir a necessidade de inputs externos e ao valorizar recursos já existentes. A reutilização de materiais, a valorização de subprodutos e a extensão do ciclo de vida dos produtos permitem aumentar a autonomia operacional e reduzir a exposição a choques externos.
Segundo a European Commission, a transição para modelos circulares está diretamente associada à redução da dependência de matérias-primas importadas e ao reforço da segurança de recursos na Europa. Este é um ponto central no atual contexto económico e geopolítico.
Mais do que Eficiência, uma Mudança de Modelo
O enquadramento criado pelo PAEC e pelas políticas europeias não se limita a pressionar as empresas a reduzir impacto. Está, na prática, a redefinir o que é um modelo de negócio competitivo.
A circularidade deixa de ser apenas uma questão de eficiência operacional e passa a estar ligada à forma como o valor é criado. Modelos baseados em reutilização, reparação ou produto como serviço representam novas formas de relação com o cliente e novas fontes de receita.
O Desafio da Implementação
Apesar do enquadramento estratégico e regulatório, a implementação continua a ser um desafio. Em muitas organizações, a circularidade está dispersa por diferentes áreas, sem uma visão integrada que permita gerar impacto real. A falta de dados, a dificuldade em medir fluxos de materiais e a ausência de indicadores claros continuam a ser barreiras relevantes.
Sem essa integração, o tema tende a ficar limitado a iniciativas pontuais, sem ligação direta à estratégia da empresa.
Por Onde Começar
A transição para a circularidade não exige uma transformação imediata de todo o modelo de negócio. Em muitos casos, começa com uma análise mais rigorosa das operações: identificar onde ocorrem perdas de valor, compreender dependências críticas e avaliar riscos associados a recursos e materiais.
Este exercício permite enquadrar a circularidade como uma ferramenta de gestão, e não apenas como um conceito associado à sustentabilidade.
O Modelo Que Já Não Sustenta o Futuro
O modelo linear não desapareceu, mas está cada vez mais exposto às limitações de um contexto económico, ambiental e regulatório em rápida transformação. A publicação do PAEC reforça essa tendência e torna mais clara a direção.
A circularidade surge, assim, como uma evolução do modelo de negócio. Uma forma de reduzir desperdício, ganhar controlo e aumentar a resiliência. Mais do que uma questão de sustentabilidade, trata-se de uma questão de competitividade. E essa é, provavelmente, a mudança mais relevante de todas.
Escrito por Beatriz Santos
*Foto da capa de Declan Sun no Unsplash

